Qua, 13 de Janeiro de 2010 20:42
De que será que vou tratar neste mini-artigo? De títulos de nobreza? De títulos imobiliários? Dos títulos de mestre ou doutor? Não, quero chamar a atenção para títulos de trabalhos acadêmicos (projetos, dissertações, teses, artigos, livros). Portanto, não estou falando de manchetes.
Segundo definições em dois dos cinco grandes dicionários brasileiros, manchete, além do significado principal (“título principal em uma edição de jornal, impresso em destaque” – Dicionário UNESP do Português Contemporâneo), tem também o significado “título de notícia, em letras maiores, em jornal ou revista” (Aurélio). Como se sabe, tais títulos frequentemente são sensacionalistas. Em geral, são escritos numa linguagem típica de manchetes, que se caracteriza pela brevidade e pela intenção de chamar a atenção. Muitas vezes, tais títulos podem ser compreendidos somente se o leitor conhece o assunto e/ou o próprio linguajar. Por exemplo, quando o “dólar cai”, nenhum dólar cai na calçada. O que acontece com os salários quando se lê “Salários do Senado vão pular o teto”? A notícia trata de uma proposta “que regulariza vencimentos dos servidores da Casa que recebem acima dos R$ 25.275 previstos por lei”. O artigo “Deu branco” não fala de alguém que esqueceu alguma coisa, mas do fato de que roupa branca está na moda. Nesses exemplos, percebe-se que nos títulos de notícias – ou de artigos ou editoriais – empregam-se palavras ou expressões polissêmicas, de modo que, devido à falta de contexto no próprio título, é comum o leitor não poder saber qual é o assunto tratado ou qual é a notícia.
Depois dessa digressão, voltemos aos títulos de trabalhos acadêmicos que conheci nos últimos dias. Esses, ao contrário das manchetes, devem sempre ser esclarecedores. É evidente que também eles precisam ser relativamente breves, e frequentemente podem ser compreendidos somente por quem conhece a respectiva área. Mas, pelo menos para tais pessoas, eles devem indicar claramente, na medida do possível, o assunto tratado. Digo “na medida do possível”, porque, visto não se costumar admitir títulos exageradamente longos, muitas vezes é impossível anunciar o assunto com exatidão. Porém, pelo menos, sempre deve ser evitado o título enganoso. O que é um título enganoso? Vou dar alguns exemplos da área da lexicografia (na qual, como nas outras áreas das Ciências Humanas, cerca de 75% - ou mais – dos trabalhos são escritos em inglês):
a) “A peek into what today’s language learners as researchers actually do”. Alguém que quisesse fazer um estudo sobre como se faz pesquisa, ou, mais especificamente, como graduandos atuam no programa IBICT, poderia se interessar por esse artigo, já que o título fala de aprendizes enquanto pesquisadores. Na verdade, o artigo relata um estudo sobre o uso de obras de referência (dicionários etc.).
b) “Using dictionaries efficiently”. Esse título tem, no mínimo, duas interpretações: o artigo poderia conter sugestões para o uso eficiente de dicionários, ou relatar uma pesquisa empírica sobre o uso de dicionários, tendo o autor constatado que eles foram usados eficientemente.
c) “Building vocabulary: Dictionary consultation and the ESL student”. Nesse artigo é mencionado brevemente a “construção”, ou aprendizagem, do vocabulário, mas ele relata, na verdade, uma pesquisa sobre o uso de dicionários na compreensão escrita.
d) “French dictionary users and word frequency”. Esse título é exageradamente geral. O artigo relata um estudo sobre a influência da frequência dos componentes de uma expressão idiomática quando aprendizes de LE têm que escolher o verbete no qual vão procurar essa expressão.
Obviamente, não acuso os autores de terem pretendido enganar os leitores. Simplesmente não se preocuparam em dar um título mais adequado ao seu trabalho.
E por que tais títulos enganosos são problemáticos? Porque, quando se faz uma pesquisa bibliográfica – necessária antes de se iniciar qualquer pesquisa científica – tais títulos causam perda de tempo, de energia, de dinheiro. Como isso pode acontecer? Existem várias maneiras de se achar a literatura especializada. Tomemos apenas dois exemplos: a) faz-se uma pesquisa no Google, ou em outra ferramenta de busca, e, entre muitos trabalhos que poderiam ser de interesse, encontram-se também títulos enganosos (o que, na hora, obviamente não se sabe); b) um colega que sabe que você está pesquisando sobre determinado assunto, ou ainda o orientador, diz que viu o título de um artigo ou livro que talvez seja importante. Então, faz-se um esforço para conseguir tal trabalho – procurando em várias bibliotecas, talvez encomendando-o pela internet ou, sendo um livro, encomendando-o numa livraria – para depois constatar que o assunto não é aquele que o título prometia e que, portanto, o esforço, e os gastos, foram em vão. E ainda perde-se tempo na leitura, mesmo que superficial, do trabalho.
Há também casos em que se tem a impressão de que o autor ou foi mal-intencionado ou lhe faltou inteligência. Um exemplo: quando eu estava preparando meu livro Dicionários: Uma pequena introdução à lexicografia, eu precisava, evidentemente, ler outras introduções. Achei o seguinte título de um livro: Dictionaries. Um livro com tal título seria, com muita probabilidade, uma introdução ao assunto “dicionários”. Fiz um tremendo esforço para ter acesso a essa obra. Depois de muita procura em várias bibliotecas no exterior, achei-o. Não era nada do que pensara; trata-se de um livrinho de pouquíssimas páginas no qual apenas são propostos exercícios para se treinar o uso de dicionários.
Para terminar, vou mencionar o caso de dois outros livros.
Um é meu livro O Uso de Dicionários. Com tal título, a obra certamente trata do uso de dicionários. Mas sendo esse um vasto campo, o título, embora adequado, ainda não é muito revelador. Então, o autor pode – e deve – fazer uso de subtítulos. Se eu tivesse colocado “Pesquisas empíricas”, poder-se-ia pensar que reuni nesse livro várias pesquisas minhas sobre o assunto (como fizeram alguns autores). Por isso, dei o subtítulo “Panorama geral das pesquisas empíricas” (onde “pesquisas empíricas” se refere evidentemente ao assunto indicado no título principal), o qual me parece suficientemente informativo.
O segundo livro é intitulado (em alemão) “O que se passa na cabeça de tradutores”. Sem dúvida, quem lê esse título vai pensar na atividade tradutória efetuada por tradutores (provavelmente profissionais, talvez leigos). Mas como, na verdade, o livro não trata de tais pessoas, o autor tentou melhorar a situação, revelando no subtítulo que os “tradutores” pesquisados eram aprendizes de língua estrangeira. No entanto, o título principal está errado, pois não se pode chamar de tradutores alunos que, no seu curso de LE, fazem algumas traduções.
Faço um apelo a todos os autores para darem aos seus trabalhos acadêmicos títulos – e, se necessário, subtítulos – que anunciem com a maior clareza possível o assunto tratado.
E o título deste mini-artigo? Bem, a intenção foi mostrar um exemplo de um péssimo título.
Herbert Andreas Welker
Professor Dr. do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da Universidade de Brasília
hawelker@yahoo.com




Estante 

