Ensinar línguas e formar professores na Ilha de Marajó: dos traços gerais à concretização no particular
Qua, 01 de Junho de 2011 15:48
Um Contexto Insular, cheio de constrates
A Ilha do Marajó para muitos representa um paraíso de praias sedutoras e uma cultura sui generis. O Marajó é local onde os búfalos passeiam livre e pacificamente pelas ruas de seus municípios, onde a brisa é constante, o tempo e o modus vivendi são peculiaridades que contrastam com a vida da maioria das cidades grandes do continente na atualidade. Sob outro aspecto, o Marajó é um território que apresenta fortes desigualdades sociais, onde as condições de vida das comunidades quilombolas contrastam com imensas fazendas e cujo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é dos mais baixos do país que já se compara a alguns países africanos segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Esses dados estão disponíveis em http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M (link indisponível, ver com o autor).

Ensinar Língua estrangeira num cenário como esse parece um contra-senso, mas o campus da Universidade Federal do Pará na capital da grande Ilha amazônica se empenha em realizar um trabalho diferenciado na área de Letras (ou da Linguagem) com vistas a suprir parte das demandas da educação local oferecendo cursos de Inglês, Francês e Alemão para prover a comunidade de profissionais que além da docência possam dar suporte a outras atividades geradoras de renda como a comercial e a turística, por exemplo.
O Estágio Supervisionado: Um Desafio Estimulante
Um aspecto singular do trabalho acadêmico desenvolvido no Campus de Soure é a concretização dos procedimentos de Prática de Ensino na atividade curricular Estágio Supervisionado de cursos Livres e dos Ensinos Fundamental e Médio. O estágio supervisionado para licenciandos de língua estrangeira é parte relevante do eixo de prática no currículo do curso, mas como torná-lo factível diante da carência de professores de língua nas escolas e da ausência de cursos de língua estrangeira no município de Soure?
As situações aqui apresentadas impulsionam gestores, professores e alunos à prática de indagação reflexiva questionando sobre as suas próprias teorias e práticas, criando condições para uma compreensão crítica da educação em línguas neste contexto e desvendando e enfrentando os constrangimentos situacionais.
A implementação por nós realizada através de aulas de Inglês, filmadas, para propiciar a observação e reflexão da prática bem como as simulações de regências em sala com os acadêmicos são demonstrações de como a distinção entre princípios metodológicos e procedimentos pedagógicos tais como os propostos por Doughty e Long (2003) impulsionam a autonomia do professor e estimulam a reinterpretação e ressignificação da prática docente.

Não desmerecendo a crucial contribuição da observação in loco para a formação docente, nem pretendendo trabalhar em uma perspectiva reducionista, o que fizemos foi passar da posição de trivial acomodação diante dos obstáculos ou das incoerências legislativas para o enfrentamento das especificidades restritivas e a valorizar o que se apresenta a partir daí.
Restrições X Beneficios = Soluções Enriquecedroras
A observação de aulas filmadas que é feita de forma coletiva dentro da comunidade acadêmica da sala de aula não é exatamente uma medida inovadora, mas se revelou opção viável, criativa e até vantajosa diante das possibilidades criadas para o desenvolvimento das habilidades pretendidas, trazendo os sete benefícios antevistos que relacionamos abaixo:
1. discussões consistentes e de diferentes olhares convergindo sobre um mesmo objeto de análise;
2. transposições contextuais para as realidades locais dos discentes, sugerindo exercícios reflexivos sobre adaptações necessárias;
3. ancoragem de situações observadas na prática em referenciais teóricos na sequência de uma mesma aula;
4. discussões sobre variações de estratégias;
5. proposições de materiais alternativos;
6. construção processual da atividade curricular centrada na natureza do ambiente de aprendizagem além de relevar dos conteúdos lingüísticos e metodológicos.
Se considerarmos que os discentes, provenientes de outros municípios, que freqüentam as aulas da modalidade intervalar em Soure no Marajó representam um percentual bem superior ao dos residentes locais e que seus municípios de origem são em regra igualmente carentes, sob o aspecto da oferta de instituições de ensino de línguas estrangeiras, compreenderemos que em suas localidades esses discentes em formação estariam igualmente impossibilitados de exercer a prática de estágio in loco e sob esta perspectiva as aulas filmadas de outros contextos se sustentam como uma estratégia eficaz.

Outros aspectos peculiares e inquietantes que sustentam e motivam para a ação de recriar, adaptar e fomentar meios de autonomização na disciplina de estágio, diante das limitações impostas pelo contexto são: a modalidade intervalar (operante em períodos de Julho a Agosto e de Janeiro a fevereiro) impõe-nos o fator temporal e o cronograma de atividades escolares como outras barreiras a transpor. Como observar e reger aulas em períodos de férias escolares? ; a realidade hidrográfica da Ilha assim como da totalidade da região amazônica apresenta um difícil desafio para a supervisão presencial do estágio por parte do docente responsável. As centenas de rios e furos que entrecortam a região são as vias efetivas de deslocamento e muitas vezes oferecem meios precários, demorados e inviabilizadores da supervisão; a sazonalidade das chuvas e das marés se constitui em mais um fator complicador para que a supervisão possa ocorrer de forma contínua nos diversos locais de onde são os formandos.
Como busca de soluções para estes aspectos desfavoráveis, apontamos para o estreitamento de relações entre coordenadores e técnicos escolares e a coordenação de estágio da Universidade para um trabalho colaborativo e produtivo no âmbito da supervisão, além de integrarmos os discentes de forma mais efetiva nas decisões que necessitam ter como foco principal os objetos de aprendizagem e formação do futuro profissional.
Não se pode, tampouco, ignorar a importância das ferramentas tecnológicas na transposição de nossas barreiras.
Entre benefícios antevistos e fatores desfavoráveis pudemos sintetizar a seguir alguns dos bons resultados colhidos das experiências vicárias no nosso microcosmo da realidade, que foram:
a) a participação avaliativa dos discentes da turma de estágio nas regências dos seus pares com reflexos na valorização e aprimoramento de seus próprios planos de aula;
b) a análise de propostas pedagógicas, apresentadas nas regências, sob a ótica de construtos teóricos suscitados ou não no planejamento inicial do curso e desta forma refinando o olhar sobre micro habilidades e possíveis desdobramentos de algumas atividades;
c) o compartilhamento de aspectos culturais de diferentes municípios da região amazônica e marajoara e inclusão destes na construção de materiais utilizados nas aulas regidas;
d) o exercício do olhar crítico do observador expresso verbalmente nas sessões de reflexão (debriefing sessions) coletivas;
e) o despertar para a diversidade dos estilos de aprendizagem como prevê Felder (1995), contemplados nas estratégias e materiais criados e apresentados nas regências;
d) o ganho de feedback explícito (ALMEIDA, MIRANDA e GUISANDE, 2010) e a consequente transição dos meta processos para o acesso consciente com efetiva aplicação de: peer assessment, descriptive feedback and collaboration de acordo com o Council of Chief State School Officers (2006);
e) a possibilidade de acompanhamento do progresso dos alunos de estágio por observação dos feedbacks em reapresentação de aulas ou de atividades avaliadas;
f) a colaboração na resolução de problemas nas “debriefing sessions”;
g) a ratificação de crenças e posturas profissionais e éticas.
Em Palavras Finais
Historicamente, sabemos que no final da década de 70, as pesquisas etnográficas se iniciaram e envolvendo os docentes como seus atores participantes. Nos anos 80, o contexto passa a ser olhado com maior relevância e com ele agregam-se as experiências, os conhecimentos e as crenças dos professores, representando um importante passo para os estudos sobre a própria formação docente.

É verídico que a iniciativa de interiorização dos campi universitários traz consigo demandas peculiares resultantes dos diversos contextos e acreditamos que a contribuição de professores autônomos, criativos e produtores de saberes locais e regionais é uma necessidade ainda mais veemente.
Sustentamos que o aplicacionismo de teorias deve ceder lugar a produção destes novos conhecimentos que devem ter como propulsoras as problemáticas oriundas de cada recorte geográfico, institucional, humano. Entender e refletir sobre como se dá a práxis dos professores em locais remotos e com características únicas, como a Ilha do Marajó é portanto, indispensável.
Finalmente, podemos afirmar que situar a disciplina de Estágio Supervisionado no domínio da comunidade acadêmica de nossa sala de aula estimulou o desenvolvimento das consciências teórico - aplicada e profissional na acepção de Almeida Filho (1993: p. 20) e foi menos a solução de um problema constrangedor da prática, e muito mais uma experiência de reconstrução do pensar e fazer acadêmico direcionada ao contexto Marajora.
Sílvia Benchimol
sbenchimol@ufpa.br
Referências
Almeida Filho, J.C.P. “Conhecer e desenvolver a competência Profissional dos professores de LE”. In:Contexturas: Ensino Crítico de Língua Inglesa. São Paulo: APLIESP, n.9. p.9-19. 2006.
ALMEIDA, L. S.; MIRANDA, L.; GUISANDE, M. A. Atribuições causais na explicação da aprendizagem escolar. In: BORUCHOVITCH, E.; BZUNECK, J. A. GUIMARÃES, S.E.R. (Org.). Motivação para Aprender: Aplicações no contexto educativo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. p. 145-166.
Council of Chief State School Officers http://www.ncpublicschools.org/docs/accountability/educators/fastattributes04081.pdf (link indisponível, ver com o autor)
D. Eastcott and R. Farmer (1992) Planning Teaching for Active Learning; USDTU/CVCP http://www.pnud.org.br/atlas/ranking/IDH-M (link indisponível, ver com o autor).
M. O'Neill and G. Pennington (1992) Evaluating Teaching and Courses from an Active Learning Perspective. USDTU/CVCP).
R.M. Felder and E.R. Henriques,"Learning and Teaching Styles in Foreign and Second Language Education,"Foreign Language Annals, 28(1), 21-31 (1995). Application of the F-S learning style model to language education. 2003 Instructed SLA: Constraints, Compensation, and Enhancement. In Doughty, C. & Long, M., (eds) Handbook of Second Language Acquisition. New York: Basil Blackwell, 256-310.




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Comentários
Muito interessante seu artigo, parabéns por levar nossa história ao conhecimento da Sociedade.
Adorei, Congratulations !
Sucesso!!