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    Qui, 17 de Maio de 2012 01:13

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Resumo: O presente levantamento revela dados relevantes sobre o ensino de LA nos cursos de graduação em Letras de instituições privadas e públicas (federais e estaduais) no Distrito Federal e algumas cidades do entorno.

Através de uma investigação quantitativa e qualitativa, o esforço empreendido desdobrou-se para além dos objetivos inicialmente traçados. Através dos registros concluiu-se que os cursos de formação de professores estão urgentemente precisando de mudanças curriculares vitais nas suas grades, como a inserção da disciplina LA, para que a melhoria de qualidade na formação dos professores de línguas venha a ocorrer. Apesar do processo de transformação já estar em pleno desenvolvimento para algumas instituições, há outras que ainda não alertaram para a importância do papel da LA no curso de Letras. O estudo confirmou hipóteses e tendências já citadas por vários estudiosos da LA.

Palavras-chave: mudança curricular, disciplina LA obrigatória, consciência reflexiva do professor.

Abstract: The present survey shows very important data about the pervasiveness of Applied Linguistics as a discipline in Letras Courses in the Federal District and nearby cities, either private or public universities that deal with Second Language Teaching Education. Through quantitative figures analysez qualitatively, much relevant information was evidenced about the observed institutions and their curricula. Many details were gathered through interviews with courses coordinators and teachers thus making this survey grow beyond its initial goal of finding out how well established AL was in the Brasilia area.

Keywords: curricula changes, AL as a mandatory discipline, improvement, teachers’ reflexive attitude.

1. Introdução

Apesar de ainda ocorrerem discussões sobre o que é ou o que deve ser a Lingüística Aplicada (LA), podemos defini-la de partida como uma ciência social da linguagem que tem como foco os problemas e questões de uso da língua pelos participantes do discurso no contexto social, isto é, usuários da linguagem dentro ou fora do meio de ensino/ aprendizagem (Moita Lopes, 2003).

Para a maior parte dos alunos das faculdades/ departamentos de Letras, a tarefa principal e imediata é aprender línguas e aprender a ensinar línguas. Essa (sub)área de ensino/ aprendizagem de línguas é sem dúvida a mais avançada em Lingüística Aplicada. A sofisticação do conhecimento sistemático sobre os processos de aprender e ensinar línguas permitiu aos lingüistas aplicados buscar novas idéias e recursos em várias outras ciências de contato como a psicologia, sociologia, lingüística (incluindo-se aí a análise do discurso), pedagogia, estatística e antropologia, consolidando-se enquanto disciplina que possui objeto e procedimentos de investigação próprios.

A Lingüística Aplicada já pode ser considerada como um campo consolidado de ensino e prática de pesquisa no Brasil, presente em 7 programas específicos de pós-graduação no país e em 12 outros bem sucedidos programas nos quais ela uma área de concentração (Almeida Filho, 2007). A LA é ainda apoiada por uma associação científica nacional, a Associação de Lingüística Aplicada do Brasil - ALAB - que promove regularmente eventos científicos sobre o movimento de pesquisa aplicada no país. Percebemos, no entanto, que a Lingüística Aplicada ainda é pouco presente nas grades curriculares de graduação em Letras nas faculdades/ universidades no Brasil, de forma geral, e em Brasília, de forma específica, mesmo havendo na cidade/região um curso perene de Pós-Graduação de Lingüística Aplicada na Universidade de Brasília.

2. Justificativa

Este trabalho tem como objetivo levantar dados concretos sobre a introdução da Lingüística Aplicada nos currículos de graduação em Letras no Distrito Federal e entorno. Para isso foi preciso colecionar os programas curriculares das instituições, estabelecer contato com coordenadores e professores das instituições para obtenção de dados específicos e analisá-los cuidadosamente para saber que importância as instituições e os cursos de Letras têm dado à disciplina ‘Lingüística Aplicada’.

Primeiramente foi realizado um levantamento de dados através da Internet no sítio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), órgão do Ministério da Educação (MEC), sobre todas as instituições do Distrito Federal e Goiás que possuem cursos de graduação em Letras. Posteriormente visitamos os sítios eletrônicos existentes dessas instituições na Internet com o intuito de conhecer um pouco mais o perfil de cada uma e a grade curricular do Curso de Letras. Finalmente, fizemos um questionário com entrevista com os coordenadores e/ou professores atuantes dos cursos de Letras de algumas faculdades/ universidades para saber se conheciam a disciplina ‘Lingüística Aplicada’, se essa disciplina já tinha sido instituída na grade curricular e por quanto tempo. Caso a disciplina não tivesse sido implementada na instituição, perguntamos o motivo de não incluí-la e se tinham a intenção de inseri-la no currículo em breve.

Assim, realizamos um censo das 25 instituições existentes no Distrito Federal e uma amostragem sistemática com 06 das 35 instituições do Estado de Goiás que estão cadastradas no MEC e que possuem a graduação em Letras para termos um parâmetro da realidade que ocorre com o ensino da disciplina “Lingüística Aplicada” na graduação em Letras nessa região de Goiás. Após a coleta de dados, foi feita a apuração e a apresentação dos mesmos através de tabelas e gráficos, finalizando com a análise dos dados.

Perceberemos com os dados a seguir que, apesar da Lingüística Aplicada ter surgido há quase 70 anos no mundo e dos esforços dos lingüistas aplicados no Brasil de conquistar seu espaço independente da Lingüística, a LA enquanto disciplina necessita de maior esclarecimento e divulgação, já que ela é diretamente implicada numa área de grande importância formativa dos alunos de Letras que é o ensino/ aprendizagem de línguas. Tal disciplina poderia introduzir conceitos da Lingüística Aplicada, resultados de investigação de natureza aplicada já abundantes no próprio Brasil e a iniciação nesse paradigma de pesquisa aplicada.

3. Metodologia

Esta mostra de tendências foi realizada inicialmente com dados quantitativos, coletados através de instrumentos válidos para a pesquisa quantitativa como questionários, dados numéricos contábeis. Essa etapa de medidas sistemáticas e cômputo estatístico culminou com a organização de gráficos e tabelas, nos quais o objetivo maior do pesquisador era o de estabelecer um mapa quantificado que indicasse tendências. De posse desses indicadores numéricos pudemos estabelecer proporções e direção das tendências quanto a (1) a inclusão da LA nos currículos dos cursos de Letras da região; (2) a manifestação de quais outros cursos tiveram seus currículos alterados, acrescentando ou eliminando a LA.

No entanto, uma metodologia qualitativa de interpretação desses dados numéricos forma a maior parte da análise. Podemos definir essa combinação como “envolvimento contínuo de interação, análise, crítica, reiteração dialética e reanálise, processos que levam a uma construção conjunta de um caso à medida que os envolvidos participam na contínua dialética, buscando compreender uma situação”. (Johnson, 1992,p.32).

4. As Instituições de Ensino Superior e os Cursos de Letras:

Segundo a LDB, a educação superior tem um importante papel na nossa sociedade conforme descrito no “Artigo 43 da Lei de Diretrizes e Bases – LDB”, onde se estabelece que as instituições de educação superior (IES) públicas e privadas têm por finalidade estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo; formar e diplomar pessoas nas diferentes áreas do conhecimento; incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica; promover a divulgação de conhecimentosculturais e científicos; suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional; estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente; prestar serviços especializados à comunidade, além de promover a extensão, aberta à participação da população

A atividade mais característica da Educação Superior consiste na oferta de cursos superiores, de variados níveis e graus de abrangência ou especialização. Nos últimos anos, houve uma extraordinária proliferação de centros universitários e faculdades particulares no Brasil devido a uma mudança da lei com o Decreto n. 2.306 de 19 de agosto de 1997 que passou a permitir que tais instituições tivessem fins lucrativos. No Distrito Federal e Goiás essa realidade não foi diferente. Muitas faculdades e universidades surgiram desde 1997 e a maioria delas apresenta pelo menos a Licenciatura em Letras. Explica-se esse generalizado interesse por instalar cursos de Letras uma vez que deles pouco se conhece a fundo como área de formação e pesquisa e por que para eles o nível de exigências é relativamente baixo intensificando assim o apetite por lucros.

Segundo as informações do INEP, órgão do Ministério da Educação (MEC) há 29 cursos /habilitações em Letras no Distrito Federal ministradas em 25 instituições e 66 cursos/ habilitações em Letras em Goiás ministradas em 18 instituições. Para esta pesquisa foram analisadas 23 instituições do Distrito Federal e seis de Goiás nas cidades vizinhas do DF como Anápolis, Valparaíso de Goiás e Luziânia.

Quase todos os cursos pesquisados oferecem habilitação em ‘português/inglês e respectivas literaturas’ sendo que apenas 6 possuem ‘português/ espanhol e respectivas literaturas’ e 3 possuem a língua inglesa como habilitação única. Do total de instituições pesquisadas, 8 delas não trabalha com qualquer língua estrangeira. Esses resultados estão representados na Fig.1.1.

FIG. 1.1 - Distribuição das habilitações dos cursos de Letras do Distrito Federal e Entorno
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Nota: No caso da última habilitação o aluno optará por uma das línguas.

Os cursos de Letras que inicialmente tinham a duração de quatro anos foram sofrendo mudanças no seu perfil com relação ao tempo e atualmente há uma variação entre três e quatro anos de duração, como é apresentado na tabela 1.2.

TABELA 1.2 - Distribuição das Instituições analisadas segundo tempo de Curso da Graduação em Letras

Tempo de curso

Nº de instituições

6 semestres
7 semestres
8 semestres

TOTAL

19
3
7

29

Das 29 instituições de ensino superior analisadas que apresentam graduação em Letras, 26 são particulares e 3 apenas são públicas. Todas possuem autorização de funcionamento, porém apenas 16 são oficialmente reconhecidas pelo MEC. A forma de avaliação feita pelo MEC para a autorização e posterior reconhecimento das instituições é realizada por dois órgãos: SINAES e CONAES.

Criado pela Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES) é formado por três componentes principais: a avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes. O SINAES avalia todos os aspectos que giram em torno desses três eixos: o ensino, a pesquisa, a extensão, a responsabilidade social, o desempenho dos alunos, a gestão da instituição, o corpo docente, as instalações e vários outros aspectos. Ele possui uma série de instrumentos complementares: auto-avaliação, avaliação externa, ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes), Avaliação dos cursos de graduação e instrumentos de informação (censo e cadastro). Os resultados das avaliações possibilitam traçar um panorama da qualidade dos cursos e instituições de educação superior no país. Os processos avaliativos são coordenados e supervisionados pela Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior (CONAES). A operacionalização é de responsabilidade do INEP.

As informações obtidas com o SINAES são utilizadas pelas IES para orientação da sua eficácia institucional e efetividade acadêmica e social; pelos órgãos governamentais para orientar políticas públicas e pelos estudantes, pais de alunos, instituições acadêmicas e públicas em geral, para orientar suas decisões quanto à realidade dos cursos e das instituições.

Conforme os dados coletados das instituições, apenas 5 se estabeleceram entre as décadas de 60 e 80. Com o decreto n. 2.306 de 19/08/1997 do MEC, depreende-se que houve um grande aumento no número de IES a partir da década de 90, especialmente das particulares, o que significa um número de faculdades/universidades cinco vezes maior do que havia anteriormente. Ou seja, durante 30 anos não houve o surgimento de tantas instituições devido à rigorosa lei que havia na época que não permitia que as instituições de ensino superior fossem consideradas empresas que tivessem fins lucrativos.

É importante lembrar que na década de 1950, a sociedade civil começava a reivindicar reformas de base. Os movimentos em prol da reforma da universidade brasileira se intensificaram, ganhando dimensão de movimento social na década de 60. No entanto, a Reforma Universitária de 1968, conforme idealizada pelos setores que deveriam promovê-la, foi violentamente reprimida pela Ditadura Militar, que absorveu esse movimento, esvaziando-o do conteúdo político e reduziu os problemas das universidades a questões de racionalização administrativa. (Sheen, 2001).

Em relação ao ensino de línguas nas escolas regulares, é importante frisar que durante a Ditadura Militar que regia o Brasil nas décadas de 60 a 80, as LDBs de 1961 e de 1971 ignoraram as línguas estrangeiras excluindo-as do currículo obrigatório dos atuais ensino fundamental e ensino médio, o que gerou um retrocesso para o desenvolvimento do ensino de línguas estrangeiras no Brasil. (Stevens & Cunha, 2003).

Apesar de todos os setores da sociedade reconhecerem a importância do ensino de língua estrangeira, as políticas educacionais não asseguraram uma inserção de qualidade em nossas escolas no âmbito geral levando à desvalorização da classe dos professores e, consequentemente, afetando os cursos de formação.

A partir do decreto do MEC de 1997, a criação de novos cursos em instituições privadas foi facilitada, porém não houve reformas que ajudassem a alcançar os principais objetivos conforme os interesses da sociedade de melhorar a educação do país. Na verdade, parece nunca ter havido um grande interesse nas políticas públicas em oferecer um ensino de qualidade no Brasil. A educação desejada dificilmente é aquela promovida pelo Governo, embora este tivesse assumido a responsabilidade pelas inovações propostas.

Para quem vive, atualmente, no âmbito da Universidade, não é difícil perceber que, apesar dos grandes avanços ela continua a organizar-se segundo normas mais ou menos rígidas. É assim, por exemplo, que a pretensa exigência de rigor e de racionalização está criando um tipo de curso baseado em currículos mínimos prefixados e cargas horárias mínimas, no qual a preocupação com o tempo gasto e com o cumprimento de exigências formais realizadas de programas está dando continuidade a um processo antigo de desvirtuamento de valores. Os cursos estão sendo avaliados mais pelo seu número de horas-aula do que pelo conteúdo real e padrão cultural que eles são capazes de possibilitar aos alunos.

A exigência, indiscutivelmente necessária, de que o ensino esteja aliado à pesquisa não conta, todavia, com uma estrutura real de recursos, nem sequer com mecanismos de ordem administrativa capazes de possibilitá-lo. A implantação gradual de tempo integral e de dedicação exclusiva, com o objetivo formal de garantir esse propósito, parece não estar sendo feita segundo critérios racionais, nem conta ainda, por parte da maioria dos professores, com a devida abertura para empregar o tempo remunerado em trabalho de pesquisa séria. Para boa parte dos docentes, o regime especial de trabalho continua sendo mais uma oportunidade de exibir uma situação privilegiada dentro da unidade escolar, do que uma forma de assumir maiores responsabilidades em relação ao ensino e à pesquisa.

A dependência cultural tem evoluído com a importação de modelos de pensamentos e os “modismos” pontificam mais do que a originalidade nos meios docentes. (Romanelli, 2003). Nesse sentido, processaram-se as mudanças sem que estas tivessem ajudado a criar condições para a formação de um padrão intelectual mais autêntico, mais autônomo. Por outro, não podemos deixar de reconhecer que está havendo um maior acesso da população ao ensino superior, mesmo que muitas instituições ainda não possam oferecer uma qualidade de ensino realmente superior.

5. A LA nos Cursos de Graduação em Letras:

A maioria dos cursos de graduação em Letras, apesar de serem responsáveis pela preparação dos professores que trabalharão com o ensino/aprendizagem de línguas nas escolas de todo o país, ainda não se conscientizou totalmente da necessidade da presença da LA em seus currículos. Das 29 instituições analisadas nesta pesquisa, apenas três possuem a disciplina ‘Lingüística Aplicada’ em suas grades curriculares. Porém, há instituições, segundo informações coletadas com coordenadores e/ou professores através de entrevistas, que desenvolvem a teoria da LA através de textos de autores da área em outras disciplinas. Tais textos são geralmente trabalhados em disciplinas como “Prática de Ensino”, “Didática”, “Abordagens, Métodos e Técnicas” ou até mesmo “Lingüística”. Contudo, apesar desses tímidos números podemos constatar que algumas instituições têm interesse em implantar a LA na grade curricular dos cursos de Letras.

Atualmente, de acordo com o levantamento realizado, percebe-se que as faculdades/universidades possuem um núcleo comum de disciplinas que podem variar de nome conforme a instituição. São elas: Língua Portuguesa; Literaturas (respectivas à habilitação); Didática; Metodologia Científica; Língua Latina; Psicologia da Educação; Leitura e Produção de Textos; Lingüística; Expressão oral; Expressão escrita; Teoria da Literatura e Estágio Supervisionado. Outro grupo de disciplinas que também é contemplado na graduação de algumas instituições pesquisadas é que abrange as disciplinas Fonética e Fonologia; Políticas Públicas Educacionais; Sociologia; Morfossintaxe; Morfologia e Ética.

Conforme a análise feita nesta pesquisa foi interessante perceber que mesmo havendo professores e/ou coordenadores mestres em Lingüística Aplicada formados na Universidade de Brasília, em várias dessas faculdades e universidades, poucas lograram instituir a LA como disciplina obrigatória até agora. Ou seja, o fato de haver mestres em LA nas faculdades não garante que a disciplina seja inserida na grade curricular da graduação de Letras.

A figura 1.5 mostra o panorama atual da LA nos cursos de Letras de Brasília e entorno.

FIG. 1.5 – Quadro atual da Lingüística Aplicada nos cursos pesquisados
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Acreditamos que vários são os motivos para que não haja a implantação da disciplina ‘Lingüística Aplicada’ nas grades curriculares. Os principais motivos são de natureza institucional, organizacional e principalmente política, combinados com a falta de informação e desconhecimento das teorias e publicações pertinentes da LA, apesar dos esforços dos lingüistas aplicados de forma geral para a sua divulgação. Há também a questão da falta de tradição e de paradigmas estáveis na LA, o que tende a enfraquecê-la. Além disso, os lingüistas e profissionais de áreas próximas resistem à mudança, pois não querem ceder espaço para essa nova área de estudo e pesquisa.

6. A importância da LA nos Cursos de Graduação em Letras -Panorama e Tendências:

A Lingüística Aplicada (LA), vista como área de conhecimento explícito, objetivo, sistemático e científico (Almeida Filho, 2005), foi durante muito tempo, erroneamente interpretada como aplicação de lingüística. Devido a tal fato, o reconhecimento da LA “como uma área cientifica com metodologia e objeto de estudos próprios” (Almeida Filho, 2005, p.15) só ocorreu graças à persistência de pesquisadores da área, às pesquisas extensivas realizadas e à produção de teoria própria. Além disso, a LA investiga competências, fatores que interferem no processo de aprender e ensinar, as crenças, história de vida do professor, seus diferentes papéis durante a aula, dentre outros. Enfim, a LA pesquisa a linguagem no momento de ocorrência, na prática.

Widdowson (2000, p.15), definiu-a como “uma tarefa que de algum modo estaria relacionada com algum problema lingüístico do mundo real”, ou seja, uma espécie de ciência social que pesquisa eventos do discurso no contexto social.

A pesquisa em LA contribui para a elaboração de teoria própria oferecendo diversidade na metodologia de investigação, análise e interpretação, revelando a área de estudos da linguagem como uma arena em constante mutação (Paschoal e Celani, 1992:21, Gomes de Matos, 1991; Prabhu, 2001).

Professores em formação que já possuem o conhecimento da pesquisa na LA buscam observar, conhecer, descrever e interpretar os momentos nos quais a língua é utilizada, para que após a reflexão e desenvolvimento da competência formal, tornem-se sujeitos interativos que promovam a melhoria do processo de ensinar e aprender ou outros processos de quaisquer outras subárea da LA (da Terminologia e Lexicografia Aplicadas, a da Tradução, interpretação e legendagem, e a das Relações Sociais/profissionais Mediadas pela Linguagem). Para Celani (2000, p.32)

“Fazer com que os resultados dos estudos a respeito da natureza da linguagem, de seu papel na vida humana, nos seus mais variados aspectos, sejam postos a serviço da humanidade é não só o papel da LA e o dever de quem nela trabalha, mas é também acima de tudo, a vocação desta área fascinante do saber”.

Com a inclusão da LA como disciplina na grade curricular de cursos de letras, as universidades estarão não somente iniciando os alunos-professores na observação de situações reais de ensinar e aprender LE, como também, motivando-os a procurar soluções e consequentemente a melhorar a sua prática, conscientizando-os da necessidade do constante aperfeiçoamento e criação de grupos de pesquisa aplicada em suas escolas.

Portanto, após conceituarmos a LA como área de pesquisa científica com teoria própria, depois de demonstrarmos suas utilidades e verificarmos opiniões que reafirmam a relevância e o papel da LA na formação de um professor de línguas reflexivo, concluímos que “ o papel da universidade, enquanto instituição responsável pela formação de professores, deve ser o de preparar profissionais para ensinar o aluno da escola a usar a língua estrangeira como uma nova forma de comunicação”. (Contin, 2004,p.18).

Os resultados de várias investigações apresentados durante o I CLAFPL/2006, demonstram que professores em formação ou atuantes, que estão familiarizados com a pesquisa aplicada, conhecedores da LA e sua importância na formação do docente, possuem características diferenciadas como a reflexão sobre sua prática, a busca de maior interação com os alunos e desenvolvimento de grupos de ação colaborativa (“Aprendizagem colaborativa de professores: algumas experiências de encontro da universidade com a escola”, projeto desenvolvido pela UNITAU).

Alvarenga (2005, p.111), por intermédio de instrumentos etnográficos de coleta e análise dos dados, realizou sua pesquisa na qual o sujeito era um professor de reconhecido nível teórico em LA e pesquisador, confirmando que a prática de reflexão coletiva e a identificação dos diferentes papéis assumidos por ele (o sujeito), no decorrer de uma sua aula gravada e analisada eram ação consciente que fazia a diferença. Tais práticas ocorriam em decorrência do conhecimento adquirido e da competência aplicada desse professor experiente e reflexivo. Além disso, esse professor teorizado observado desenvolveu um processo de:

“geração de conhecimento sobre o que é tornar-se professor, de ter co-responsabilidade pelo julgamento da adequação dos alunos-professores, com os quais trabalhava, envolvendo a todos na tentativa de compreender o ensino não através do certo ou errado, mas sim de ações que podem ser justificadas e interpretadas.” (Alvarenga, 2005,p.136)

A expansão da LA no novo século nos cursos de pós-graduação já faz parte da realidade brasileira. Na graduação vislumbramos o crescente interesse nos cursos de Letras. Entretanto, é possível constatar algumas áreas em pleno desenvolvimento, tais como: (a) A Lingüística de Corpus; (b) Informática e aprendizagem; (c) modelos reflexivos de formação de professores.

Os resultados ora apresentados confirmam o início das mudanças curriculares nos cursos de graduação em Letras, no Distrito Federal assim como em Goiás, havendo, entretanto, instituições de Ensino Superior em processo de renovação curricular como a própria UnB onde mudanças curriculares já ocorreram no último ano e meio com resultados animadores. Instituições como a PUC/SP, UEL (Universidade Estadual de Londrina), a UFSJ (Universidade Federal de São João Del Rei) Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste Paranaense), a e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) cujas bases curriculares oferecem a LA como disciplina regular do currículo formam um núcleo irradiador para outras instituições em outras regiões do país.

Desse modo, podemos perceber que há segundo Almeida Filho (2007, p.1) uma “oferta estável de condições de estudo, disciplinas específicas, orientadores qualificados e bem caracterizados atuando na área, teses e dissertações com clara natureza aplicada em fluxo contínuo, vigência de projetos em linhas de pesquisa (pelo menos) e, preferencialmente, em área de concentração quando o programa não for explícito, integral e autodenominado de Lingüística Aplicada”, e que, portanto a disciplina Lingüística Aplicada está expressivamente bem representada em cursos de pós - graduação, favorecendo a experiência reflexiva e visão do contexto onde o processo ocorre e as outras variáveis que interferem numa sala de aula.

Segundo Contin (2004, p.17) que apresentou o primeiro perfil do programa de Pós-graduação em LA do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução (LET), UNB, no artigo “O Professor de Línguas e a Lingüística Aplicada”, o número de candidatos e de dissertações desenvolvidas entre os anos de 2000/2003 aumentou devido, inclusive, à divulgação da área em eventos como o ELARCO (I Encontro de Lingüística Aplicada da Região Centro-Oeste) produzido em Brasília em outubro de 2004 e I ELAN (I Encontro de Lingüística Aplicada da Região Norte) realizado em Belém em outubro de 2006.

Dentro da perspectiva da inovação curricular mostramos nesta seção a importância da inclusão da LA nas grades curriculares de cursos de formação de professores de LE e citamos algumas instituições que já atualizaram suas grades curriculares com sucesso. Segundo Celani, 2006, em sua palestra de encerramento do I CLAFPL, na qual enfatiza a necessidade de enfrentar os “desafios dos tempos conturbados na educação dos professores como transformação, construção criativa do conhecimento, desenvolvendo o potencial humano (Vygotsky) e experimentando os valores humanos (Dewey)”.

7. Considerações finais

O surgimento de vários programas de pós-graduação em Lingüística Aplicada incentivou uma pressão de cima para baixo por um lado, pois democratizou mais a especialização e a pesquisa pós-graduada, possibilitando que mais pessoas tivessem o acesso à pesquisa aplicada no âmbito dos estudos da linguagem. Porém, como Almeida Filho (2000) postula, conseguir um diploma a qualquer custo, uma licenciatura ainda que sem lastro, é meta reforçada com a proliferação de cursos “universitários” de baixa qualidade consentidos, embora com crescentes restrições atualmente pela profissão e pelos órgãos educacionais.

Quanto à disciplina ‘Lingüística Aplicada’, ela está ainda está numericamente pouco presente nos cursos de graduação de Letras de Brasília e entorno mas a força de um programa de pós-graduação emergente em Lingüística Aplicada na UnB certamente ocasionará com o tempo uma mudança de hábitos e almas nos demais programas de graduação da região. É preciso avançar mais rapidamente na divulgação desse campo de pesquisa mostrando sua importância principalmente na formação do professor de línguas, dos tradutores e demais profissões da linguagem. Muitas instituições, principalmente entre aquelas investigadas nesta pesquisa, ainda não reconhecem o valor da Lingüística Aplicada, até porque muitos dos professores que compõem o corpo docente nessas instituições não tiveram a oportunidade de estudar LA nos cursos que freqüentaram.

No Brasil ainda há insuficiente produção de pesquisa em LA em geral e um pouco menos no ensino de línguas. É preciso formar logo uma massa crítica profissional e acadêmica, com movimentos profissionais de associações, iniciativas oficiais conjuntas com as universidades que mantêm pesquisa e a intensificação da investigação aplicada sistemática nos projetos de iniciação científica dentro dos cursos de Letras. Podemos perceber que pouco a pouco a LA cresce, pois promovem-se constantes encontros e fóruns mostrando sua importância e potencial. Este levantamento preliminar de dados nesta pesquisa analítica das condições de oferta da LA em cursos de Letras de Brasília e entorno serve para mostrar aos colegas de trabalho, pesquisadores e professores em formação, como a LA está situada atualmente em nossa região e o tamanho do seu potencial no desenvolvimento próximo de novos cursos e currículos de Letras do país.

Carmen Lúcia Vieira de Mello
Giuliana C. Brossi
Maria Cecília M. A. Freitas
Rachel Machado

 

Referências

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__________________. ‘O Fazer Atual da Lingüística Aplicada no Brasil: Foco no Ensino de Línguas’. Apresentação do 1º volume da Revista Horizontes de Lingüística Aplicada. Brasília: UnB, nov. 2002.

_________________.Crise, Transições e Mudança no Currículo de Formação de Professores de Línguas’. In: FORTKAMP, Mailce BM & TOMITCH, Leda MB (Orgs.)Aspectos da Lingüística Aplicada. Florianópolis: Insular, 2000, p.33-47.

ALVARENGA, Magali Barçante ‘Configuração da abordagem de ensinar de um professor com reconhecido nível teórico em Lingüística Aplicada’.In: O Professor de LE em Formação (Org.).Campinas, SP: Pontes Editoras, 2ª ed. 2005.

CELANI, M.A.A. ‘A Relevância da Lingüística Aplicada na Formação de uma Política Educacional Brasileira’. In: FORTKAMP, M.B.M. & TOMITCH, L.M.B. (Orgs.) Aspectos da Lingüística Aplicada. Florianópolis: Insular, 2000.

CONTIN, Adriana. ‘O Professor de Línguas e a Lingüística Aplicada, Horizontes de Lingüística Aplicada’. UNB, Ano 3, n.2, p.17-23. Brasília, Dez.2004.

GOMES DE MATOS, F. ‘Português positivo: comunicação construtiva em língua portuguesa’. In: Revista Internacional de Língua Portuguesa. Lisboa, 5/6,1991.

MOITA LOPES, L. P. ‘Oficina de Lingüística Aplicada: a natureza social e educacional dos processos de ensino/aprendizagem de línguas’ – Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003. (Coleção Letramento, Educação e Sociedade)

PAIVA, Vera Lucia M. de O. ‘A LDB e a Legislação vigente sobre o ensino e a formação de professor de língua inglesa'. In: STEVENS, M. C.; CUNHA, J. C. (Orgs.) Caminhos e colheita: ensino e pesquisa na área de inglês no Brasil. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2003, p. 53-84.

PESSOA, Aline Ribeiro. ‘As Lingüísticas e seus Campos de Interesse’. Revista Desempenho, UNB, n.1, p.19-29. Brasília. Novembro, 2002.

PRABHU, N.S. ‘Ideação e Ideologia na Pedagogia das Línguas’. In: Trabalhos em Lingüística Aplicada. Campinas, (38): 59-67, Jul./Dez.2001.

ROMANELLI, Otaíza. ‘História da Educação no Brasil (1930-1973)’. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2006.

SCHMITZ, John Robert. ‘Lingüística Aplicada: Novas Dimensões e Identidades no Século XXI. SIGNO, Santa Cruz do Sul, v.30, n.48, p.7-24, jan./jun.2005.

SHEEN, Maria Rosemary C.C. ‘Recortes da história de uma universidade pública. O caso da Universidade Estadual de Maringá’. Maringá: EDUEM, 2001.

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Esta é uma versão revisada do trabalho iniciado por Carmen Lúcia Vieira de Mello, Giuliana C. Brossi, Maria Cecília M. A. Freitas e Rachel Machado para conclusão da disciplina “Metodologia de Investigação em Lingüística Aplicada” ministrada pelo Prof. José Carlos P. Almeida Filho, no Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada da Universidade de Brasília, no segundo semestre de 2006.

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