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Exame Nacional de Ensino Médio - ENEM

Escrito por José Carlos Paes de Almeida Filho.

Conhecer e usar língua(s) estrangeira(s) moderna(s) como instrumento de acesso a informações e a outras culturas e grupos sociais.

 

Análise da proposta publicada pelo MEC realizada por J. Carlos P. Almeida Filho, Professor do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada da UnB, especial para a SALA em agosto de 2010.

Os objetivos indicados no Edital do Exame publicado na Página do INEP e reproduzidos acima são CONHECER e USAR uma de duas línguas estrangeiras (LE), a saber, o Inglês ou o Espanhol.  Isso implica aprender sobre fatos da língua-alvo e aprender a usar essa língua. Esse uso não deveria estar restrito à língua escrita, à leitura mais especificamente, como é de praxe na nossa pobre escola média. A oralidade também está no jogo e essa possibilidade abre perspectivas inovadoras para o ensino de línguas na escola brasileira. Implica também cuidados oficiais que deverão ser tomados na implementação de uma dimensão contemporânea oral na aprendizagem do uso das línguas que preenchem a disciplina Língua Estrangeira.

Examinar conhecimento explícito sobre a língua-alvo e cultura(s) associadas a ela pode ser feito com lápis e papel, mas o valor disso é limitador se perdermos de vista o propósito de desenvolver capacidade de uso oral da nova língua no Exame, propósito esse que está sugerido no caput acima ou pelo menos não interditado por ele.  

Língua não é bem definida como instrumento, mas entende-se que no contexto do ENEM ela sirva para acessar conhecimentos (ciência estaria subentendida aí) e outras formas de cultura de diferentes grupos sociais que falam as línguas que no Exame ainda são denominadas “estrangeiras”. As implicações dessa acepção podem reforçar sentidos negativos para a aquisição dessa nova língua. Aqui fica indefinido se vamos ensinar o acesso à descrição de outras culturas, se vamos acessá-las via uso comunicativo da língua-alvo nas salas de aula, ou se ambos. Se formos acessar grupos sociais estrangeiros de fato, o uso comunicativo da língua-alvo fica ainda mais imperativo. A expressão deste objetivo geral não é pequena ou indigna da disciplina, absolutamente. Ao contrário, poderia ser mesmo uma posição avançada nos anos iniciais de aplicação do Exame para o tamanho e natureza de nossa realidade escolar brasileira.

Das orientações oficiais para o Exame constam as seguintes capacidades listadas abaixo. A letra H deve indicar habilidade e os números são indicadores da posição de cada capacidade numa seqüência de tópicos das diversas áreas cobertas pelo ENEM.

H5 -

Associar vocábulos e expressões de um texto em LEM ao seu tema.

Análise JC: o estudo de vocabulário, de relações entre termos (coesão) e até a formação de redes lexicais é o que indica esta faceta posta para avaliação. Texto aqui não deveria ser interpretado limitadamente como texto escrito apenas, mas certamente essa deve ser a tendência subentendida. Temas e seus tópicos implicam escolhas lexicais específicas numa construção de sentidos por funções comunicativas e, até, de gêneros textuais relevantes para aprendizes de línguas nas escolas.

H6 -

Utilizar os conhecimentos da LEM e de seus mecanismos como meio de ampliar as possibilidades de acesso a informações, tecnologias e culturas.

Análise JC:  Interpreto que está proposta a busca em textos orais e escritos de informações relevantes de cunho científico, tecnológico ou cultural que circula na L-alvo. Uma implicação deste objetivo é a necessidade de compreender como se expressa conhecimento científico num texto: graus de certeza, asserções firmes, exemplificações, descrições de processos, verdades incompletas ou provisórias na forma de hipóteses, formas de concluir etc.

H7 -

Relacionar um texto em LEM às estruturas linguísticas, sua função e seu uso social.

Análise JC: Num texto para leitura, o Exame poderá explorar conhecimentos sobre estruturas gramaticais nele contidas e intencionalidades possíveis desse texto na vida social. Pode estar implícita nos textos oficiais uma familiaridade com gêneros relevantes associados à sempre presente habilidade de ler em detrimento de outras habilidades relevantes como ouvir com compreensão e produzir textos consoantes.

H8 -

Reconhecer a importância da produção cultural em LEM como representação da diversidade cultural e linguística.

Análise JC: Produção cultural é um termo bastante abarcador que sugere bem mais do que textos acadêmicos de divulgação científica. Além da literatura mais tradicionalmente compreendida como produção da cultura, inscrevem-se nessa categoria livros sobre a cultura-alvo, cinema, televisão, cultura popular de rua ou folclórica, representações culturais midiáticas como hip-hop,e campanhas publicitárias.  O termo que chama a atenção é “reconhecer a importância” dessa produção. Isso nos convoca a  mais detalhamentos: fazer isso apenas em Português como se fosse conteúdo extra de Estudos Sociais? Nessa acepção, não há qualquer avanço significativo para a aquisição dessa língua-alvo para veicular a cultura e indagar sobre ela na própria língua em construção nos aprendizes.

Numa palavra, é louvável e não sem tempo que as outras línguas de comunicação ampla no mundo mereçam seu lugar no Exame ENEM daqui por diante.  A vinculação da experiência à leitura ameaça predominar conforme tradicionalmente tem ocorrido no país. Essa visão parcial do que representa aprender uma nova língua na escola não aguentará mais por muito tempo. Conhecer e reconhecer palavras, gramática e ideias contidas num texto parece muito pouco e fora de época como objetivos principais.  Pode ser que não tenham atinado ainda com alguma forma prática de avaliar outras habilidades no quadro de limitação avaliativa com lápis e papel a que ainda estamos condenados.  Um exame que pode abrir portas de universidades tem de ser mais autêntico ao representar nos focos das suas questões a língua-alvo integral, mesmo que no início a oralidade ainda pudesse ser avaliada por escrito como etapa de transição por, digamos, cinco anos . O que ou quem foi que determinou que após 7 anos de escolarização numa outra língua e sua cultura só restariam palavras, itens gramaticais e algumas posições culturais destacáveis acerca dessa nova língua avaliadas na leitura e por escrito? É só isso mesmo o que devemos esperar ou esse estado de coisas é apenas uma deformação que foi sendo instalada nos vestibulares e nas salas como efeito retroativo pernicioso dos quais queremos nos despedir um dia?

Vamos vigiar e conferir se a primeira bateria de questões para as línguas serão colocadas para avaliar também capacidade de uso e entrecruzamentos culturais naturalmente emergentes das condições do uso da língua-alvo, tanto na oralidade quianto na escrita. Vamos aguardar ainda esperançosos um novo tempo para o ensino e aprendizagem de línguas no Brasil.

 

José Carlos Paes de Almeida Filho
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Comentários  

 
0 # Valeu José Carlos!!Adelaide 06-10-2010 12:14
Sempre bom compartilhar de suas compreensões em defesa de um ensino (e no caso de uma avaliação) mais significativo para a LE.
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0 # Belo texto!Rosely Xavier 08-10-2010 18:31
Parabéns José Carlos! Identifiquei-me muito com o seu texto.
Um abraço
Rosely
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0 # Sonho sonhado sozinho é utopia, sonhado em conjunto é começo de uma nova realidade.Edcleia Basso 23-10-2011 18:35
Belíssima defesa pela qualidade de ensino de LE no Brasil, que nao limite, mas que supere.
Saudade de sonhar com você uma possibilidade viável primeiro para o ensino, depois para a avaliação desta aprendizagem.

Beijao
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