A Lista Comunidade PLE entrevistou o Professor Dr. José Carlos Paes de Almeida Filho e conversaram sobre Português Língua de Herança

1. Português língua de herança. Como definir?
O Português como Língua de Herança (PLH) é uma especialidade de PLE (Português como Língua Estrangeira) e se caracteriza como um contexto em que o Português e a cultura (brasileira, no nosso caso) são ensinados a filhos de brasileiros imigrados no exterior. O termo “herança” se refere ao desejo de preservação ou recuperação da língua e cultura nacionais do Brasil como capitais herdados de pais nativos ou quando pelo menos um deles é brasileiro(a) residindo com a família num outro país. A situação se apresenta quando se percebe que há uma comunidade de expatriados cujos filhos estão sendo educados numa cultura e língua que não o Português e surge a consciência de que esses bens simbólicos brasileiros não devem ser perdidos pela nova geração de filhos de brasileiros vivendo longe de seu país. Geralmente a iniciativa parte de pais associados ou de um clube de mães que concordam em preservar nos seus filhos a língua e a cultura dos pais. O desejo de formar classes de Português LE/Língua de Herança precisa invariavelmente de apoios para que suas práticas se estabeleçam em bases contemporâneas de ensino e aprendizagem. Os apoios imediatos são de natureza financeira, metodológica e político-institucional. Os dois últimos carecem da adesão estratégica de universidades, outras instituições superiores já mais desenvolvidas, centros binacionais brasileiros no exterior e do poder público brasileiro mediado pelas embaixadas e consulados mantidos no exterior.

2. Currículo de português língua de herança: o que ensinar?
Um verdadeiro currículo de PLH ainda está por vir à luz. Já se fala dele, já se indica essa urgência, mas até agora estamos envolvidos na construção de planos ou planejamentos de cursos com essa marca de especialidade. Os cursos que hoje estão em marcha têm uma preocupação com a cultura que deve permear fortemente as experiências de aprendizagem da língua. Se estivermos corretos em interpretar o PLH como uma situação distintiva de língua segunda, o planejamento ganha créditos por ser temático, comunicacional, experiencial e interativo na própria L-alvo, cuidando de ensinar língua-cultura por meio de tarefas e projetos que podem explorar tópicos de interesse dos aprendizes, conteúdos de outras disciplinas do currículo e aspectos culturais relevantes que sustentam essa língua-alvo. Tendo pensado nesses conteúdos e nas formas de trabalho com eles já na L-alvo, os cursos de PLH vão também necessitar de muita reflexão sobre pressupostos e modos de atuação para fazer avançar a qualidade ou natureza desses cursos nos níveis. É possível que dividamos a experiência total de um curso de PLH nos níveis de (1) pré-alfabetização, (2) alfabetização (em simultâneo com o que ocorre já na L1 do país anfitrião, e (3) pós-alfabetização I e II, tornando a criança ou pré-adolescente confiantes no uso da língua para seguir outros cursos ou até se integrar a cursos regulares da escola brasileira participando dos exames nacionais escolares brasileiros em língua portuguesa.

3. Qual deve ser o perfil do profissional que atua como professor de português como língua de herança?
A realidade é muito díspar, por enquanto. Há professores de outras disciplinas, profissionais de outras áreas com experiência no ensino prático de PLE e há profissionais formados no Ensino de Línguas e de PLE numa proporção menor. O perfil do profissional deve aliar a formação de professores para as séries iniciais e para o ensino fundamental a uma formação específica, se possível, formalizada e reflexiva no ensino de PLE. A formação geral para trabalhar com PLE é, claro, fundamental.

4. Como tem sido tratado o ensino do português como língua de herança pelo Ministério da Educação do Brasil?
Vivemos um certo limbo no ensino de PLE em geral e ainda mais perigosamente no de PLE/LH. Primeiro, porque não temos uma política no país para formar mais e melhores professores de PLE para contextos brasileiros e do exterior, ambos em trajetória crescente. Segundo, porque, o Ministério da Educação desconhece esse contexto e o Ministério de Relações Exteriores, com a mais longa experiência gestora de centros de estudos de Português no exterior, não assume essa área completamente, deixando-a subsistir como preocupação secundária em meio aos seus objetivos diplomáticos de cerne. Em terceiro lugar, as universidades brasileiras não acordam para o aspecto estratégico dessa área de PLE para o futuro da nação e da língua portuguesa no mundo. Assim, vamos caminhando por iniciativas próprias ocasionais das instituições, fazendo progressos, obviamente, mas não tirando o máximo proveito dos recursos ainda escassos para as especialidades e para a própria área de PLE e Cultura Brasileira. Nos Estados Unidos, tenho participado do esforço produzido pela pioneira Associação de Mães da Virgínia, apoiada acadêmica e financeiramente pela Universidade de Georgetown. Foram realizadas três Oficinas nos anos de 2009 e 2010, duas delas com a minha presença e intervenção na qualidade de especialista brasileiro vinculado a universidade (Universidade de Brasília– UnB). Conforme for avançando nossa experiência no Distrito de Columbia, em Washington, outras dimensões do contexto serão focalizadas e mais subsídios ficarão disponíveis para inúmeros grupos em formação em diversas partes do globo.

Comentários  

# Patricia Curley 30-09-2016 22:58
:-| Filososfia e analogia interessante do ponto de vista academico, representa pouco o tipo de dedicacao que pais precisam para "inventor" escolas ou educar educadores.
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