Sex, 21 de Maio de 2010 10:13
INTRODUÇÃO
Neste trabalho, pretendemos explorar a nomeação e designação de gênero em uma abordagem discursiva tridimensional que considera o discurso como texto, prática discursiva e prática social (FAIRCLOUGH, 2001, p.100). Nessa perspectiva, Fairclough propõe uma abordagem que reúne tanto a análise de discurso orientada linguisticamente quanto o pensamento social e político relevante para o discurso e a para linguagem, “na forma de um quadro teórico que será adequado para o uso na pesquisa científica social, e especificamente, no estudo da mudança social" (FAIRCLOUGH, 2001, p. 87). A proposta da abordagem crítica objetiva, pois, desmistificar discursos que foram constituídos e que estão embutidos no senso comum de tal forma que se tornam naturais.
Procuramos delimitar a pesquisa em um dado jogo de linguagem, a produção de repentistas consagrados e repentistas do sertão central cearense para analisar as construções dos sentidos da violência, bem como as identidades sociais que são construídas para homens e mulheres na referida prática cultural. Abordaremos também os atos de fala, tentando perceber, através da performatividade, como atos de fala violentos podem se constituir em formas de violência física.
Desse modo, estudamos a violência no Nordeste, entendendo-a como fruto de discursos que foram historicamente construídos e que designações como cabra macho nordestino fazem parte de uma tradição imagético- discursiva que foi construída na literatura, na música, na arte, que atravessa os nossos falares cotidianos.
Ancorados na Análise do Discurso Crítica que tem por objetivo “desnaturalizar” ideologias e levando em consideração o contexto histórico social da modernidade tardia em que foram produzidos os Repentes, este trabalho ousa tentar intervir numa pratica discursiva a fim de modificar formações ideológicas e, consequentemente, alterar formas de vida social.
1. MACHISMO NORDESTINO
Não é de hoje que o sujeito nordestino é considerado machista, essa é uma característica vista como a própria “forma de ser” do nordestino, tradicionalmente narrado como um valente, um cabra da peste. Nesse sentido, percebemos uma apologia da violência em práticas culturais nordestinas, através das quais os sujeitos são identificados cotidianamente como sujeitos violentos. Essa constatação é preocupante, pois nos indica uma sociedade com mecanismos discursivos bastante violentos de produção de sujeitos.
A imagética discursiva do sertanejo é historicamente construída em várias manifestações tanto na literatura, quanto na música e nas demais artes. Esses discursos são legitimados, transformando fenômenos históricos, relativos em eternos imutáveis e naturais, quando atos de violência são legitimados pelo código de moralidade popular. Já foi naturalizado que ser valente no nordeste é algo desejável, uma exigência comum em certos contextos, como valores arraigados em nossa cultura. Isso se dá de tal modo que os que não se identificam com esse discurso machista são discriminados, denominados pejorativamente de covardes, mulherzinhas. É famosa a máxima: “o sertão não é lugar de homens fracos”.
Nesse sentido, pode-se afirmar que a violência, apresentada na sociedade contemporânea como um complexo problema social de difícil solução, não existe em si, uma vez que o que define as práticas humanas como praticas de violência são as construções de sentidos.
2. O REPENTE
Considera-se que origem do Repente é árabe e foi introduzido no Brasil a partir dos portugueses como herança dos trovadores medievais (MOTA, 2002). Trovador, na lírica medieval, era o artista de origem nobre que compunha trovas, rimas. Os poemas eram sempre cantados e acompanhados de danças e de instrumentos musicais como a cítara, a viola, a lira ou a harpa.
No Brasil, a tradição medieval ibérica dos trovadores deu origem aos cantadores, ou seja, poetas populares que vão de região em região, com a viola nas costas, para cantar os seus versos "de repente", em desafios com outros cantadores. Não importa a beleza da voz ou a afinação, o que vale é o ritmo e a agilidade mental que permite encurralar o oponente apenas com a força do discurso. Essas figuras do improviso cantado atraem famílias inteiras das redondezas de uma comunidade. Conforme Ramalho (2000, p. 90):
Integrados pela identidade com o mundo rural, pelo linguajar especifico da região, pelos mesmos sentimentos da religiosidade e da moral tradicional cristã, os ouvintes de cantoria comportam um universo muito heterogêneo em termos de status social, mas conseguem manter-se unificados diante dos poetas cantadores, certamente porque lhes representam, simbolicamente, a memória viva de sua cultura.
O Repente, segundo o cantador quixadaense João de Oliveira, vem passando por diversas mudanças sociais. A urbanização da cantoria hoje é fato. O cantador afirma ainda que houve uma inversão geográfica: o Repente que se dava essencialmente na zona rural, ao contrário de hoje, quando de cem cantorias realizadas, apenas dez são na zona rural.
O Ceará é um dos principais centros do Repente. Em festivais de cantoria está atrás apenas de Pernambuco, seguidos da Paraíba e Rio Grande do Norte. Atualmente o sertão central do Ceará congrega um grupo de profissionais liberais que têm em comum a paixão pelos improvisos dos poetas cantadores. Informalmente organizados, atuam como animadores culturais dessas manifestações dos nossos poetas populares. Promovem e se fazem presentes às várias cantorias que se estendem na região do sertão central, apoiando os profissionais da viola e atuando como intermediários entre os outros setores da sociedade onde têm penetração.
A partir dessa consideração, delimitamos a pesquisa nessa região que também tem sido ponto de encontro de vários cantadores renomados, graças ao Festival Internacional de Trovadores e Repentistas do Sertão Central que aconteceu durante dois anos seguidos em Quixadá e Quixeramobim, em 2004 e 2005. O evento colocou a região no cenário da cantoria nacional.
Quixadá, situada no Sertão Central do Ceará, é também é berço do ilustre repentista, Cego Aderaldo. É certo que ele nasceu em Crato, no Cariri cearense, mas veio morar em Quixadá ainda criança, a cidade que adotou como sua. Aos 18 anos aconteceu um acidente que lhe tirou a visão. A partir desse trágico momento de sua vida, passa a ser cantador, tornando-se o maior cantador e repentista que já passou pelo nordeste (MOTA, 2002) e deixando uma legião de seguidores de seu estilo, que se autodenominam representantes e porta vozes da cultura do nordeste brasileiro, cantando ao seu público tanto os eventos do mundo real em que vivem, quanto às fantasias que povoam as suas imaginações.
Pela observação-participante feita na cidade de Quixadá-CE, percebemos que a circulação do Repente se dá em Rádios, Bares, Casas de Família, convites feitos aos cantadores para aniversários e comemorações variadas. Atualmente a divulgação do Repente na cidade é feita pelas seguintes emissoras de Rádio: AM Monólitos 5970, com os repentistas João de Oliveira e Sebastião Gomes, de 05h00min as 06h00min; AM Cultura 1080, com Guilherme Calixto e Valdir de Lima, de 17h00min as 18h00min; FM Central 104, com Adriano de Freitas, de 17h30min as 18h30min. Existem também bares que são frequentados diariamente pelos repentistas. Dois deles tem maior destaque: o Bar da Felicidade, que fica na Rua Epitácio Pessoa e o Bar do Martin, na Rua Rui Maia.
No que diz respeito ao consumo desse gênero cultural, foram realizadas também entrevistas com pessoas que gostam e se identificam com o Repente, e estas afirmaram que os programas de cantoria são escutados com frequência, porém por um seleto grupo. Segundo o cordelista e repentista quixadaense Miguel Peixoto, o consumo de tais manifestações culturais em Quixadá-CE é insuficiente. Para ele o público ouvinte se reduz a cada dia.
3. APARATO TEÓRICO
O presente trabalho busca fundamentação teórica nas seguintes áreas: Análise do Discurso Crítica, Pragmática, Ciências Sociais e Estudos sobre a violência. Em cada uma delas, estudamos os efeitos de sentidos na produção das identidades sociais e selecionamos as categorias teóricas necessárias para respondermos a seguinte questão de pesquisa: como são interpretadas, reproduzidas ou contestadas identificações ou identificações para homens e mulheres nas práticas discursivas do Repente, vivenciadas em Quixadá-CE?
Wittgenstein em Investigações Filosóficas (1989) afirma que o “falar da linguagem é parte de uma atividade ou de uma forma de vida”, ou ainda “representar uma linguagem significa representar uma forma de vida”. Como Wittgenstein utiliza a forma plural (formas de vida) “podemos considerar que assim como há inúmeros jogos de linguagens, há inúmeras formas de vida”. Quanto à diversidade desses jogos de linguagem, ilustramos com alguns exemplos: representar teatro, resolver um enigma, traduzir de uma língua para outra, resolver um exemplo de cálculo aplicado, pedir, agradecer, maldizer, saudar, improvisar um repente, e outros.
O cantador ilustra bem esse conceito de linguagem como forma de vida, pois faz da sua linguagem, o Repente, seu estilo e sua maneira de viver. Em minhas visitas a locais onde acontecem cantorias em Quixadá e demais localidades, percebi varias particularidades. Esse jogo de linguagem do Repente e da cantoria realiza-se em forma de eventos comumente visitados pelo gênero masculino. Há também uma espécie de saudosismo na fala dos repentistas e cantadores, uma espécie de sentimento romantizado do Repente. Fala-se muito bem dos repentistas de antigamente, com lembrança de um tempo bom, e um sentimento de revolta, com relação ao repente atual, por falta de incentivos por parte, das autoridades locais.
Da Pragmática, trataremos, mais especificamente, dos atos de fala para verificar quais são as relações entre os sentidos corporificados na materialidade linguística (atos de fala violentos) das praticas discursivas da cultura dita popular.
Para Austin (1962) a linguagem não tem uma função descritiva, mas uma função performativa. Ao falar o homem realiza atos por meio da linguagem. Concebe a linguagem como uma atividade construída pelos/as interlocutores/as, ou seja, é impossível discutir linguagem sem considerar o ato de linguagem, o ato de estar falando em si a linguagem não é assim descrição do mundo mais ação. Desse modo, ao considerar quer dizer algo é fazer algo, Austin desenvolve a noção de performatividade, criando o conceito de ato de fala e desdobrando-os em três atos simultâneos, a saber: um ato locucionário, ou seja, o “dizer algo”, “o que inclui o proferir certos ruídos, certas palavras em determinada construção, e com um certo significado”; um ato ilocucionário, que é o ato de fazermos algo ao proferir uma sentença, quando ao enunciá-la estamos perguntando ou respondendo, dando alguma informação, ou garantia ou advertência, anunciando uma intenção, pronunciando uma sentença, marcando um compromisso, fazendo um apelo ou uma crítica etc. e um ato perlocucionário ou perlocução, que é o ato de produzir certos efeitos ou consequências sobre os sentimentos, pensamentos, ou ação dos interlocutores (Austin, 1962, p. 85).
Para Judith Butler (1997) o ato de fala de nomeação é considerado como um ato violento na medida em que torna o corpo vulnerável a uma identificação linguística que funciona como uma marca, uma identidade da qual o sujeito não consegue se livrar. Tentamos, desse modo, perceber possíveis formas de violência que se configuram no próprio ato de fala
Nesse sentido estudamos a performatividade dos atos de fala, por meio dos quais são construídas e reivindicadas identificações tradicionais e novas identidades, que muitas vezes se configuram como violentas.
Nessa linha de investigação que considera a linguagem como uma prática de homens e mulheres no mundo, Fairclough (1992, 2003) propõe uma análise crítica do discurso cujo objetivo seria o de “desnaturalizar” ideologias que foram embutidas de tal modo nos discursos, ao ponto, de assumirem o lugar do senso comum. O programa consiste em desmascarar as proposições implícitas compreendendo-as em diferentes graus de “naturalização”. Ideologias como a do machismo que cristaliza e reproduz relações desiguais de poder.
Fairclough (1992) vê a linguagem como parte da sociedade e não algo externo a ela. A linguagem, para ele, é processo social e um processo socialmente condicionado por outros fatores sociais não-linguísticos. A relação entre linguagem e sociedade é, portanto, interna e dialética. Dessa forma, sua teoria social do discurso procura identificar a significação da linguagem na produção, manutenção e mudança das relações sociais de poder.
Ele explica que o discurso figura de três principais maneiras como parte de praticas sociais, relação entre textos e eventos: como modo de agir, como modos de representar e como modos de ser. A cada um desses modos de interação corresponde um tipo de significado. O significado acional focaliza o texto como modo de (inter)ação em eventos sociais [...] o significado representacional enfatiza a representação de aspectos do mundo - físico, mental, social - em textos [...] e o significado identificacional, por sua vez, refere-se á construção e à negociação de identidades no discurso [...] (RESENDE; RAMALHO, 2006, p.60)
Fairclough (1999) analisa o discurso no cenário atual, identificado como pós-moderno, no qual percebemos constantes reconfigurações das noções de tempo e espaço, marcado pela a crise de valores e identidades.
Sobre essa crise de valores e identidades, Stuart Hall (ano, pag), diz que as identidades modernas estão sendo “descentradas”, isto é, deslocadas ou fragmentadas. As identidades modernas estão entrando em colapso. Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas. Isso está fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade.
Esse processo produz o sujeito pós-moderno, conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas.
Apoiado em estudos sobre a violência percebi que esse fenômeno passa também pela questão da representação linguística ou da constituição de sentidos nas praticas culturais do cotidiano.
4. A CONSTRUÇÃO DOS SENTIDOS NO REPENTE
No que se refere a exemplo de análise, para os estudos sobre as constituições de sentidos da violência foram apresentados três fragmentos de repentes dos seguintes autores: Manoel Clementino, Sebastião Cândido dos Santos, Valdir de Lima e Guilherme Calixto. Os textos analisados pertencem ao gênero situado Repente.
Para investigarmos o significado acional que focaliza o texto como modo de (inter)ação em eventos sociais, selecionamos a categoria intertextualidade. Em termos da produção, uma perspectiva intertextual acentua a historicidade dos textos: a maneira como eles sempre constituem acréscimos às cadeias de comunicação verbal existentes, consistindo em textos prévios aos quais respondem, através das diversas vozes que se articulam nos textos (FAIRCLOUGH, 2001, p. 114). Para analisarmos o significado representacional, o qual enfatiza a representação de aspectos do mundo - físico, mental, social - em textos, analisaremos os atos de fala como formas de violência linguística. E para investigarmos o significado identificacional, isto é o modo como a linguagem constitui identidades sociais, estudaremos as metáforas e comparações.
No que se refere intertextualidade nos fragmentos textuais analisados observamos a ausência da articulação de vozes, sendo escassas as instâncias de discurso relatado, predominando hegemonicamente a voz do gênero masculino. Observemos os trechos da prática cultural em questão:
(1) Foi cabra valente
Que viveu com o pé na lama
José Antônio do fechado
Morreu em cima da cama
Brigou matou muita gente,
Morreu mas ficou a fama.
(Manoel Clementino)
(2) Já nasci assim
Sou cabra valente
Minha fama e na cantiga
Sou feroz e no repente
Colega, tome cuidado, escute, fique ciente:
Eu, pegando um cantador
Sou pior que dor de dente!
(Sebastião Cândido dos Santos)
(3) Eu pegando uma viola,
Não sirvo de mangação:
Sou que nem onça no inverno
E cascavel no verão!
Cantador metido a duro
Me vem pedir a benção...
(Valdir de Lima)
O significado identificacional está relacionado ao conceito de “estilo”. Estilos constituem o aspecto discursivo de identidades, ou seja, relacionam-se à identificação de atores sociais em textos. Como o processo de identificação no discurso envolve seus efeitos constitutivos, Fairclough (2003) sugere que a identificação seja compreendida como um processo dialético em que discursos são inculcados em identidades, uma vez que a identificação pressupõe a representação em termos de presunções acerca do que se é. Para a análise do significado identificacional em textos, o autor sugere, entre outras categorias, a análise das figuras de linguagem. Lakoff e Johnson (2002, p.45) explicam que as metáforas são infiltradas na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas no pensamento e na ação.
Percebemos nos exemplos (1), (2) e (3) metáforas e comparações que são dadas discursivamente aos sujeitos: Foi cabra valente que viveu com o pé na lama, Sou pior que dor de dente, que nem onça no inverno, e cascavel no verão. Por meio dessas figuras percebemos, em meio a um sentido de disputa, comum à arte do Repente, descrições que naturalizam o discurso machista do nordestino e, nesse caso, a identificação do violeiro como um homem valente e destemido. Esses sentidos são ideologias, pois constroem relações de poder, de dominação versus submissão, através de identificações imagético- discursiva, constutivas de identidades historicamente construídas para o nordestino. São práticas discursivas que legitimam a violência e sustentam ideologias machistas. Nos repentes, os violeiros se consideram valentes e destemidos.
Como efeito desses discursos, temos um sujeito machista através da ideologia que diz que o homem de verdade necessita ser macho, valentão. Essa ideologia está arraigada na linguagem e nas formas de ser dos repentistas. Em (1) Morreu mas ficou a fama, percebemos o quanto é tradicional esse discurso no nordeste. E o quanto era respeitado o sujeito que se comportava dessa forma. Leiamos outros trechos de repente:
(4) Quem sabe tudo e diz logo
Fica sem nada a dizer
Do jeito que eu vou deixar-te,
Não vale a pena viver
Corto-te o beiço de cima
Faço sorrir sem querer
(Guilherme Calixto)
(5) Lembrança não me faz medo
Nem choro não me faz dó:
Eu te mando sair daqui
Te meto no Xilindró...
Se resmungar, leva peia!
Se chorar leva cipó!
(Valdir de Lima)
(6) Eu encontrando um poeta
Querendo sê mais do que eu,
Parto-lhe o pé na barriga
Que ele bota o que comeu.
(Sebastião Cândido dos Santos)
Em termos de significado representacional, analisamos nos fragmentos (4), (5) e (6) através do exame dos atos de fala que exaltam a identidade do valentão. Os violeiros são representados como homens fortes e viris que não têm medo de nada, através de atos ilocucionários de ameaça, sublinhados nos textos acima, como em (5) Se resmungar, leva peia! Se chorar leva cipó (6) parto-lhe o pé na barriga. Ser briguento e machão nesse jogo discursivo é algo valoroso.
Percebemos que tais atos ilocucionários de ameaça são também atos perlocucionários na medida em que as escolhas linguísticas dos repentistas realizam ações ao constituírem sentidos específicos para o homem nordestino. Por meio da performatividade, configuram-se atos de fala violento, pela valentia dos repentistas que em um tom insultuoso, desafiam seus adversários de cantoria de um modo que muitas vezes pode acarretar reações de seus interlocutores em formas de violência física.
Como afirma Câmara Cascudo (apud RAMALHO, 2000) “E se a cantoria acaba com uma briga, pela virulência dos ápodos ganhará moralmente aquele que cantou o ultimo verso, sinal que seu antagonista não pôde responder e recorreu às vias de fato.”
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Observamos identidades machistas que são construídas através dos discursos dos repentistas. Tais identidades constituem sentidos que, como ideologias, operam na sustentação e no estabelecimento das relações de dominação, usando estratégias típicas de construções simbólicas. Desse modo, ideologias machistas e discriminatórias ganham status de senso comum, a partir do momento que são naturalizadas e legitimadas nas práticas culturais do cotidiano.
Ao investigar práticas discursivas que reproduzem ideologias, buscamos através deste trabalho analisar a constituição dos sentidos da violência no contexto atual em que certas escolhas linguísticas acarretam certos modos de ser e constroem identidades violentas para os sujeitos, para por meio dessa tomada de consciência, buscarmos reverter práticas cotidianas de violência.
Gustavo Cândido Pinheiro
Estudante de Graduação do Curso de Letras da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central, na Universidade Estadual do Ceará e bolsista FUNCAP
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Orientadora: Profa. Dra. Claudiana Nogueira de Alencar
Professora doutora do curso de Letras da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central, na Universidade Estadual do Ceará
Referências
AUSTIN, J. L. How to do things with words. Harvard University Press, 1962.
_____. Quando Dizer é Fazer: Palavras e Ação. Trad. de Danilo Marcondes de Souza Filho. Porto Alegre, Artes Médicas, 1990.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A Ed, 1997.
MOTA, Leonardo. Cantadores. 7. ed. Rio/São Paulo/Fortaleza: ABC Editora, 2002.
MUSSALIN, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Org.). Introdução à Linguistica: domínios e fronteiras. Volume 2. São Paulo: Cortez Editora, 2001.
RAMALHO, Elba Braga. Cantoria nordestina: música e palavra. São Paulo: Terceira Margem, 2000.
RESENDE, Viviane; RAMALHO, Viviane. Análise do Discurso Crítica. São Paulo: Contexto, 2006.
WITTGESTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas (Philosophische Untersuchun-gen). São Paulo: Abril Cultural, 1984.



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