A gente falou e reviveu no último post as perdas e rupturas que o emigrante experimenta morando fora e como muitas vezes esses processos são mal compreendidos por nós mesmos e por nossos familiares. Hoje vou discorrer sobre o que se ganha morando no exterior.

Alguns desses ganhos são óbvios, outros levam tempo para serem percebidos. Só as experiências e o tempo os revelarão.

Obviamente, morando no exterior tem se a oportunidade de se aprimorar em uma língua estrangeira de maneira ímpar. É só no dia a dia que realmente se aprende uma língua, porque, como já falamos aqui, língua é cultura. Quer ver um exemplo?

Reformando meu apartamento (na semana do meu casamento, diga-se de passagem), resolvi remover a textura de bolinhas do teto. Aqui chamamos isso de “pop corn celling” – a coisa mais horrorosa em construção e decoração. Para removê-lo, é preciso usar uma ferramenta para raspar tudo aquilo. Como o trabalho é para lá de pesado, fui à uma loja de construção em busca de uma solução melhor, mais fácil. Expliquei o meu problema ao moço do balcão e a um pedreiro, também na fila. O pedreiro, muito solícito, veio logo com uma solução: elbow grease. Elbow grease? – repeti feliz e satisfeita. E onde encontro, em que prateleira? Os dois morreram de rir. Elbow grease significa: muque. Era só muque que eu precisava. De que outro jeito eu aprenderia isso?

Além disso, morar no exterior possibilita o emigrante ter uma perspectiva mais aberta, mais internacional (espera-se) no que diz respeito à cultura, economia, política… enfim, a tal da visão de mundo. Espera-se que o emigrante nunca se esqueça de que não é nativo onde mora e, assim, consiga enxergar melhor como as diferenças são o que realmente nos fazem inteligentes e importantes.

Infelizmente, todos nós conhecemos conterrâneos que “incrivelmente” esquecem como falar português morando há 2, 5, 20 anos fora, que falam mal do povo no Brasil e que até ligam para a imigração "dedando" ilegais. Se a vida fora do Brasil deu certo para ele, seja lá como, por que não daria para outros? Por que temos de continuar com essa mentezinha pequenininha de gentinha?

Mas o mais importante dos ganhos ao meu ver é, morar no exterior proporciona casca grossa. É bem verdade que a idade adulta contribuiu no meu caso – cheguei aqui com 22 anos e hoje com quase 30 sou outra pessoa. Essa é a história de muitos brasileiros que vão a outros países com seus 20 poucos anos e tem seus processos de "adultar" potencializados pelas experiências únicas de se viver sozinho em terra estranha.

A gente aprende, por exemplo, a defender em voz alta escolhas e decisões, sotaques e tradições, sonhos e conquistas. E temos um argumento a mais – eu não sou daqui, sou do mundo. Sempre encontraremos os xenofóbicos de plantão que vão tentar justificar os seus “não, passar bem” com as mais criativas respostas. Mas garra e perseverança sempre prevalecem.

Se já é motivo de elogio prosperar no seu próprio país, na sua própria cidade, que dirá no exterior. A selva é brava, gente. A mare é do contra, para todo mundo. Se eu tivesse um centavo para cada não que ouvi enquanto queria crescer nesses últimos anos, eu estaria milionária.

A gente ouve não de todo mundo, até de si mesmo. No começo abaixa a cabeça, dá uma risadinha sem graça para a piadinha de mal gosto sobre ser da Amazônia onde só tem banana, do coordenador no mestrado fazendo graça do sotaque, das conterrâneas brasileiras falando mal no facebook. Mas daí, uma hora… CLIC.

E daí você descobre que o sucesso tem hora marcada, porque a parte difícil é decidir vir com a cara e a coragem, se despedir da família, fazer dar certo e savor (saborear) cada oportunidade.

Dedico este post a você, morador do exterior.

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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