Que se ganha muito morando no exterior não há dúvida: experiência, domínio de uma  língua estrangeira, dinheiro… até cônjuges, às vezes. Se você não mora no exterior, talvez não consiga entender. Mas também se perde muito quando se decide mudar de país.

Eu já moro em Nova Iorque há 7 anos e tenho certeza de que outros morando há mais tempo devam ter uma lista ainda maior das vantagens e desvantagens de se morar no exterior. Entre os meus amigos e conhecidos entrevistados, foi unânime listarem em meio as desvantagens a falta da família, a falta de suporte e a saudade das comidinhas.

Por mais que as novas tecnologias venham transformando o que significa se comunicar, não poder falar com a mesma frequência do passado, junta-se à perda daquela je ne sais quoi, aquela ligação, aquela afinidade. É no só no dia a dia, na convivência com a mãe, avó, cachorro, piriquito e papagaio que a nossa vida como um todo se revela a entes queridos sem a gente nem abrir a boca. Morando fora, a gente consegue esconder uns quilinhos a mais, uma chateação latente ou o namorado novo.

Os anos vão se passando e todos “move on” com suas vidas. Uns casam, outros descasam, o garoto do fundão da sua sala se forma em Medicina, a melhor amiga deixa a igreja, o primo se declara gay, seus avós morrem. A diferença é que esses caminhos que começam paralelos vão aos poucos se distanciando. Você muda também. E daí, como se faz para botar na cabeça dos familiares que você mudou bastante, mas num curso de anos e anos? Fica difícil.

Fica mais difícil ainda se suas experiências com o Brasil, agora com cônjuge e filhos, ou não, se resumem as ferias de 15 dias a cada 1, 2 anos. Fica super esquisito e quase perde o sentido. Por isso a necessidade de o Brasil (da sua língua e cultura) fazer parte do dia a dia aqui. Porque assim nem a comidinha brasileira vai fazer tanta falta. O bife vai queimar, o pirão vai ficar salgado que nem o Mar Morto, o pão de queijo vai queimar, mas uma hora sai de um jeitinho que a barriga vai dar aquele sorriso saudoso.

É uma ruptura. Uma ruptura com o seu passado pessoal, com sua família e amigos, com o seu país. Mas esta ruptura não precisa ser tão traumática. A gente ainda pode se declarar brasileiro, com muito orgulho, ligar a "cada espirro" ou uma vez por semana, votar nos consulados, apoiar iniciativas brasileiras. Porque o que a gente não pode é ser desonesto consigo mesmo. Mudança não precisa impôr o apagar as memórias.

E como nós, tem muitos outros no mesmo país, estado, bairro e as vezes até na mesma rua. Basta observar. Quem sabe assim você cria uma família emprestada na qual não só brasileiros, mas expatriados como você se juntam para criar esse novo je ne sais quoi, uma nova afinidade.

Quem sabe assim até curamos aquela falta de suporte…

Felicia Jennings-Winterle
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

O que vem primeiro é o ovo, não a galinh…

O que vem primeiro é o ovo, não a galinha

O ovo aqui é mais amarelinho

O ovo aqui é mais amarelinho

A galinha do vizinho sempre bota ovo mai…

A galinha do vizinho sempre bota ovo mais amarelinho

O Dia do Português como Língua de Heranç…

O Dia do Português como Língua de Herança

O comercial que refrescou o Brasil

O comercial que refrescou o Brasil

Ode à tapioca

Ode à tapioca

Programa de formação para professores de…

Programa de formação para professores de POLH