Foto: Jaque Amorim

Fala-se muito em língua, cultura, bilinguismo e multiculturalismo. Isso tudo é maravilhoso e fascinante, especialmente se pensarmos sobre o futuro de nossos brasileirinhos. Mas como se chega lá, são outros quinhentos. Como falamos no post anterior, pai e mãe precisam se planejar para o processo de educar uma criança bilíngue. Antes disso, porém, devem se perguntar: isso é importante para mim? Por quê?

Pessoas de todo o mundo estão deixando de ser cidadãos de um só país e se tornando cidadãos do mundo; com isso, mudam-se conceitos em diversas áreas – educação, psicologia, economia, política. Especificamente em nossa discussão, é preciso entender que são vários os processos pelos quais uma pessoa passa ao mudar de país. Não é só a língua que muda, mudam-se os costumes, às vezes o vestuário, os hábitos alimentares, e quem sabe até alguns valores.

A esse processo dá-se o nome de aculturação. Nas palavras de grandes psicólogos e estudiosos, aculturação é o processo adaptativo do imigrante na sua interação com o contexto da cultura de acolhimento.* Trata-se de um fenômeno psicossocial multidimensional, o que significa que é natural que imigrantes passem por diversas mudanças em suas atitudes e comportamentos, consciente e inconscientemente.

O mais interessante em tudo isso é que, apesar de este ser um processo universal, quer dizer, pelo qual todo mundo passa, também varia muito de pessoa para pessoa. Cada um tem um tempo diferente para se adaptar, cada um vem de um meio social diferente, cada um apresenta um nível de estresse diferente, e assim, cada um chega a um ponto final.

A aculturação pode se dar em três níveis: superficial (no qual há aprendizagem de costumes, acontecimentos sociais e históricos); intermediário (no qual aspectos mais centrais são afetados, como a preferência e o uso de determinado idioma, a etnicidade de amigos e cônjuges, ou a preferência por ambientes e atividades); e significante (no qual se notam mudanças nos valores e normas, o que quer dizer que a visão de mundo de uma pessoa e seus padrões de interação são alterados).

Outros estudiosos acrescentam que a aculturação seja na verdade o resultado de um modelo biculturalista adotado pelo imigrante. Quer dizer que os indivíduos sofrem dois tipos de processos independentes de aculturação: um na cultura de origem, e outro na cultura de acolhimento. Além disso, há profissionais que definem que a aculturação seja um processo contínuo e, portanto, que um imigrante pode navegar ao longo dos anos de um estágio para o outro.

E como se definem esses estágios? O estudioso J.W. Berry propõe tais estágios, a partir da resposta individual às seguintes perguntas: A minha identidade cultural tem valor suficiente para ser mantida? Será que devo interagir com a sociedade dominante?

Se as respostas forem NÃO e SIM, respectivamente, o estágio é ASSIMILAÇÃO (no qual se prefere renegar a própria identidade cultural e aceitar a do país de acolhimento).

Se as respostas forem SIM e SIM, respectivamente, o estágio é INTEGRAÇÃO (no qual os indivíduos querem manter sua identidade cultural e, ao mesmo tempo, permanecer ao grupo social majoritário).

Se as respostas forem SIM e NÃO, respectivamente, o estágio é SEGREGAÇÃO (no qual não há o desejo de relacionar-se com a sociedade de acolhimento, somente o de manter as tradições culturais maternas).

Finalmente, se as respostas forem NÃO e NÃO, o estágio é MARGINALIZAÇÃO (no qual existe perda total de contato tanto da cultura de origem, quanto da cultura de acolhimento).

E você, em que estágio se encontra? Lembre-se que o fator de maior importância nessa discussão é o de preservar a saúde e o bem-estar biopsíquico do indivíduo para que ele possa não só prosperar no país para onde se foi, mas ser feliz e orgulhoso de quem é.

 

*Processos de aculturação e autodeterminação de refugiados em Portugal (2005), escrito por Ricardo Brilhante Dias e publicado em Psicologia.

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

Comentários  

# Névil Fernandes Mota 19-06-2015 09:16
Dentro da aculturação encontraremos varias formas ou características de relacionamento social, que ao falar propriamente da aculturação não devemos esquecer de fazer um breve retrato do tal.
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