No post passado falamos sobre a importância da imersão, você se lembra? Imersão na cultura do dia a dia brasileiro, no Brasil. Falamos como nada comprova de forma mais eficiente a máxima “língua é cultura” que voltar ao lar depois de anos. Matam-se as saudades de gostos, cheiros e sons e, de repente, dá-se conta de que muito do que é daqui só é bom aqui. Hoje vou destacar para você como o que é só daqui tem sido mais e mais resgatado e se tornado “chique” e em voga.

Lembra como a gente comia à vontade aquele monte de brigadeiro nas festinhas de crianças? Confessa ai, você também colocava uns 3, 4 (alguns 6, 7) de uma vez na boca antes do parabéns, não é? Pois é, agora não é mais preciso esperar pelo aniversário do irmão, da prima ou da boneca – brigadeiro é chique no Brasil, e no mundo. Muitas lojas foram abertas nos últimos anos com uma proposta gourmet para o doce tradicionalmente brasileiro. Cada bolinha custa entre R$3 - R$5 (o preço de uma lata de leite condensado), vem em caixas decoradas com tecido, ladrilhos ou fibras e trazem os mais diversos sabores – de cachaça à maracujá, passando por cookies n’ cream, claro. No Brasil e no exterior, a bolinha de chocolate tem gerado empregos e muito, muito lucro.

Da mesma forma, o bolo caseiro está em alta no mercado de todas as cidades do Brasil. É, aquele bolo que a sua avó fazia quando você ia visitá-la. Sem cobertura nem recheio, sem pasta americana, sem bonecos e caminhões em cima… só a velha alquimia perfeita entre trigo, ovos e açúcar. As lojas estão espalhadas pelas cidades - uma mais cheirosa que a outra. A ideia é resgatar o sabor da infância e conquistar o mercado do dia a dia que tem sido atraído pelas padarias. Sim, o brasileiro tem se tornado cada vez mais obeso, mas entre o bolo caseiro com gostinho de infância e um sorvete cheio de gordura hidrogenada do McDonald’s, qual guloseima é realmente ruim para você?

Ainda na herança das festinhas de aniversário, os salgadinhos cresceram, foram aos botecos e agora fazem até intercâmbio. Durante a copa do mundo foram a sensação dos estrangeiros que ficaram malucos por não poderem descrever os sabores e aromas. Uns dizem que a coxinha tem gosto de “chicken soup on a bite”, outros “I don’t know what it is… it’s a fried ball of something and it is god damn delicious”.

Em algumas mordidas é possível experimentar temperos de diversos estados e de épocas tão distantes, de nós mesmos e de outras gerações. Em alguns botecos as filas dobram a esquina e os donos usam até a calçada como parte de seu espaço de espera. De quebra, servem caipirinha – uma mais criativa do que a outra e, se você visitar a casa certa, com sabores genuinamente brasileiros – cupuaçu, açaí, jaboticaba, lima e gengibre, maracujá, e a minha favorita, caju.

Música então… o brasileiro é muito musical e a sua língua é só uma das provas disso. São tantos os estilos musicais que o próprio brasileiro ainda tem muito o que experimentar e conhecer. Que dirá os estrangeiros e os brasileirinhos, aprendizes de todas as especialidades da língua. Uma particularidade dos brasileiros é convidar amigos para comer em sua casa, ao invés de ir a restaurantes e cafés, como fazemos no exterior. E com a comida caseira vem a música. Um pega um violão, outro um atabaque ou um pandeiro e, voilá, a festa está pronta.

Em minha viagem favorita de volta ao Brasil, tive a oportunidade de ser convidada para um churrasco muito delícia, como diz meu marido, com música melhor ainda. Um grupo composto por cunhados, os Cunhas, apresentou ao meu marido gringo samba e pagode de altíssima qualidade. Todo mundo cantou, até o gringo. Nessa situação, muito mais organizada que as festas que tínhamos na minha casa, tinha repique, bumbo, cavaquinho, e a oportunidade de experimentar um bom e velho churrasco com amigos.

E a música brasileira não só mata saudades, forma novos laços, novos amigos. Nessa mesma viagem, pude conhecer um grupo de choro excepcional que, toda terça se junta para tocar em um restaurante chamado Pau Brasil, e acaba também, formando novos amigos. Mais e mais, o choro, um novo velho amigo, vem conquistando os ouvidos do Brasil e do mundo. E veja só, lá estava eu, no Pau Brasil, comendo bolinho de bacalhau, tomando uma deliciosa caipirinha e ouvindo a versão mais romântica de Carinhoso já tocada. É porque era a comemoração de 20 anos de casamento de novos amigos, que tínhamos conhecido na semana anterior.

Dava para ser mais brasileiro, mais amarelinho do que isso? E você, qual o momento mais amarelinho que lhe vem à mente?
 

Felicia Jennings-Winterle
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Mestre em educação e cognição e trabalha junto à comunidade brasileira nos EUA promovendo e incentivando a língua e cultura do Brasil. Morando por lá há anos, ela tem lutado para que o português nosso de cada dia seja parte da identidade de brasileiros e brasileirinhos.

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